Exposição “A Vida é Ouvido” de Cristina Castro, com direção artística de Inês Falcão.
A vida é ouvido partiu da expressão tomada de empréstimo de um ensaio de Álvaro Lapa, pela sua capacidade de mostrar serenidade e tumulto a um só tempo. A ela acrescenta-se uma certa estranheza procurando materializar uma essência do mundo. O ouvido surge como espaço de congeminação, um espaço tripartido, onde o mundo entra em sussurro, altera-se com um filtro que se vai apurando, e um ouvido que aprende a ser surdo para que deixe que as melodias se possam compor, acolhendo silêncios. Parece um modo de tentar controlar o espaço/tempo mas é somente um corpo a agir enquanto tal, tendo o acaso como o acesso primordial que molda tudo. Interessa a ideia de repetição e de continuidade, num ciclo ininterrupto, que paira de modo frenético, e que se faz de lugares palimpsesto, que podem ser de serenidade por ora, mas enfrentando sempre a deia inelutável da tragédia eminente, ou de forma inversa. Diante destes trabalhos, que nasceram de errâncias por lugares de vida, praias e florestas sadias, mas também de morte, onde se assiste a calamidades, rasgos de fogo ou rompantes de água, podemos sentir uma grande consternação, uma certa paz, e ainda um estranhamento que contamina as tonalidades intermédias das possibilidades do sentir. O corpo que se “empresta ao mundo” e que este devolve em pintura, nas palavras de Merleau-Ponty, deixa-se alterar escolhendo uma ou outra via, permitindo que do erro nasça outro erro, e que a soma de erros faça um conjunto de trabalhos que se tornem numa concentração do mundo, numa profundidade. O ouvido é como um ponto tomado como lugar de ensaio, centro de condensação da essência do universo, onde tudo se une, ou melhor dizendo, se concentra.
Cristina Castro (Porto, 1974), vive e trabalha no Porto, é artista, investigadora e professora. É doutorada em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, mestre em Museologia e Património Cultural pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e licenciada em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. É membro integrado do CIEBA, Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e membro colaborador da unidade de investigação ID+ ESMAD. Leciona na Escola Superior de Média Artes e Design do Instituto Politécnico do Porto, e na Universidade de Aveiro. A sua obra tem como estrutura a materialização de possibilidades da ideia de fluxo, em desenho e pintura, dando visibilidade àquilo que tendo presença é invisível.
A exposição estará patente até ao dia 30 de novembro.
